Prologo

754 Words
Pessoas morrem o tempo todo, eu já deveria ter me acostumado. No noticiário você sempre está vendo a notícia de um assassinato, atropelamento, sequestro ou suicídio. As pessoas morrem, é simples e fácil de entender. Acontece que quando você está do outro lado, quando você é a pessoa que teve o seu coração comprimido pela dor da perda daqueles que amava, nenhuma das bobagens que os religiosos dizem sobre a morte faz sentido. Por que isso aconteceu?, você se pergunta. Por que ele e não eu? Nascemos, crescemos e morremos. Essa é a ordem natural das coisas. Mas há também um segundo fato do qual acredito fielmente. Sempre podemos mudar a maneira como as coisas terminam. Sempre podemos encontrar uma solução para um problema grave, transformando-o em nada mais do que uma leve dor de cabeça. Céticos chamam esse fato de Otimismo, cientistas chamam de Teoria do Caos e eu chamo de sorte. Sorte não é bem como as pessoas pensam. Não se trata de carregar amuletos em formato de pé de coelho ou comer biscoitos com mensagens moralistas em seu interior. A verdadeira sorte é um sentimento muito parecido com o amor. Algo que dá a força que você precisa para proteger e zelar por aqueles que conhece. Eu tive sorte uma vez. Eu a encontrei na forma de um policial de olhos tristes e sorriso bonito. A minha sorte me ensinou mais do que eu pude aprender em toda a minha vida livre. Ela me ensinou sobre a perda, me fez entender que não poderíamos mudar o passado, mas que deveríamos usá-lo como uma catapulta para um recomeço melhor, desde que tivéssemos alguém com quem contar. Minha sorte só não me ensinou como suportar a dor sem a sua ajuda. Fui m*l acostumada. Peguei-me desejando vê-la todos os dias. Sua presença aquecia o meu coração de uma maneira que nenhum outro homem foi capaz. Minha sorte sabia do seu efeito sobre mim e usou isso para me ajudar a crescer. A minha sorte me salvou de uma vida ilusória. Ela me protegeu mesmo quando eu a feri. Minha garganta ainda estava com um aspecto inflamado pelas lágrimas reprimidas. Meus lábios tremiam e meus joelhos se dobravam de tempos em tempos, tentando me levar às ruínas enquanto braços fortes me agarravam pela cintura. Eu gostaria de dizer que consegui me manter firme. Gostaria de dizer que não tive forças para chorar uma lágrima sequer já que havia passado a noite anterior chorando até pegar no sono. Infelizmente, havia mais lágrimas em mim do que poderia me orgulhar. Meus olhos ainda estavam inchados e doloridos, marcando o meu rosto pálido com olheiras evidentes. Ele teria rido. Teria dito que eu estava ridícula e me mandaria usar um óculos escuros como todos os outros que se reuniam ao redor do seu caixão. Ele sabia que eu teria rido de volta, teria dito algum palavrão e resmungado por horas. Isso teria deixado-o de bom humor. Ele teria sido enterrado feliz. Diferente da careta séria que deformava o seu lindo rosto. Depositei a minha rosa branca sobre as tantas outras, sentindo as mãos em torno da minha cintura o tempo inteiro. Arrastaram-me para trás novamente e minha cabeça se ergueu para enxergar o padre que se pôs à frente do caixão. Ele fez o sinal da cruz no ar, abriu sua bíblia e começou a ditar palavras em despedida. Meu estômago se contraiu e as lágrimas retornaram, tendo um grito solto pela minha garganta como uma música fúnebre. Fui arrastada para ainda mais longe, ouvindo murmúrios confusos de pessoas à minha volta. Estavam todos preocupados com o meu estado mental em vez de se preocupar com o homem morto que esperava pacientemente para ser enterrado. Eu tive sorte uma vez. Aprendi a lidar com os meus problemas patéticos com a sua ajuda. Minha verdadeira sorte veio na forma de um policial gentil e com um passado torturador que fez toda a minha vida não ser nada além de uma versão adulta de um filme americano para adolescentes. Minha sorte era um homem chamado Zed Malik. Era, no passado. Embora eu não soubesse disso até o momento em que o perdi.
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