Narrador narrando
Lucas nasceu em uma família em que, tanto por parte de mãe quanto por parte de pai, havia pessoas com histórico de depressão e ansiedade. Uma prima da sua mãe, Nicole, teve depressão e se suicidou se atirando em um poço. Já por parte de seu pai, Roberto, havia um tio-avô que havia se matado com chumbinho. O mais impressionante desta história toda é que na mesma idade de Lucas, ele parecia ser uma cópia fiel do rapaz, desde a personalidade aos gestos e até a aparência.
Lucas começou a dar os primeiros sinais de que tinha tendências depressivas e ansiosas quando tinha seis anos. Inexplicavelmente, ele começou a arrancar pelos da cabeça e da cauda. Os pais assistiam à cena agoniados, era como se ele não sentisse dor alguma. Ele roía as unhas até elas começarem a sangrar e, de novo, parecia que ele estava anestesiado.
Os pais não entendiam muito bem os sinais do que aquilo se tratava e eles brigavam para ele parar de fazer aquilo. Lucas recebeu até umas palmadas para parar de fazer aquilo, e depois de tanta luta, ele parou. Mas, os pais notaram que ele ficou um pouco ansioso e só os jogos o acalmavam.
Narra Nicole
Não sei o que tá acontecendo com este menino, ele não para ele ficar puxando os pelos da cabeça e da cauda. Ele não sente dor, tá até saindo sangue.
— Ai, que agonia. Para com isso, Lucas — eu digo a ele.
— Não consigo — diz ele.
— Para, já — digo isso, mostrando a chinela pra ele. Lucas para, mas depois, ele ainda continua.
Olha como isso tá ficando f**o, sua cauda está quase toda pelada e ele parece não se importar. O que tá dando neste menino, meu Deus? Roberto e eu estamos preocupados.
— Temos que levar ele a um psicólogo — diz Roberto — Talvez resolvam o problema.
Narrador narrando
O problema de Lucas já estava tão visível, que todos estavam comentando, até na rua Lucas arrancava seus pelos na frente de todo mundo, não se importando com o que achariam. A cauda de Lucas estava com a ponta sem pelo, parecendo a cauda de um rato.
Nicole já estava com vergonha de sair com ele na rua, pois aquilo chamava a atenção de todos. Chegou a circular rumores maldosos de que Lucas estaria sofrendo maus tratos. Lucas se tornou o assunto mais comentado, todos queriam saber o que estava acontecendo com ele.
Narrador narrando
No dia seguinte
Roberto e Nicole resolvem levar Lucas a um psicólogo. O prédio era bonito, de dois andares, pintado de branco, com janelas de vidro e um jardim com uma pracinha na frente. Os três entram pela recepção e são atendidos por uma gata preta que até simpatizou com o Lucas.
— Ah, ele é o Lucas, seu filho que você me falou?
— Sim — disse Roberto.
— Ele é muito bonito — disse a gata, sorrindo.
Lucas retribui o sorriso e ela até passa a mão na cabeça dele, ele gostou do carinho.
— A senha de vocês é essa, 123. Vocês podem se sentar nas poltronas, fiquem à vontade — disse a gata.
Os três se sentam na última fileira. Lucas não parava quieto e enquanto estavam esperando ser chamados, ele balançava e cruzava as pernas e os braços. Ele estava com uma vontade enorme de arrancar seus pelos, sendo impedido pelos olhares de reprovação de Nicole e Roberto. Não demorou muito e um outro casal chegou à recepção, pegou a senha e depois se sentou em um assento à frente deles, era uma gata com um raposo e uma raposinha, filha dos dois.
A raposinha estava com a cauda toda ferida e pelada, e não tinha cabelo nos p****s. Com preocupação, Nicole comentou com Roberto:
— O caso dela é mais grave que a do Lucas, tomara que isso passe logo — diz Nicole.
— Ainda bem que trouxemos ele logo — diz Roberto.
A gata-preta que havia os atendido estava com o rosto bastante preocupado e os pais da raposinha também, eles estavam quase chorando.
— Mãe — diz Lucas — Por favor, não quero ficar assim.
— Você não vai, meu filho — diz o pai fazendo um carinho na cabeça dele e Lucas começou a chorar.
— Para com isso, Lucas. Calma, vai ficar tudo bem — diz a mãe.
A mãe coloca Lucas deitado com a cabeça em seu colo e com os pés na outra cadeira.
— Calma, vai ficar tudo bem — diz ela e fazendo carinho nele — Não chora.
Lucas acaba caindo no sono e fica dormindo até a hora em que seu número é chamado:
— Número 123.
— Acorda, Lucas — diz Nicole.
Lucas acordou com um susto e se espreguiçava, perguntando o que estava acontecendo.
— Vamos, é a nossa vez — diz Nicole.
Lucas acompanha seus pais, sonolento, até a sala do psicólogo. Ao entrarem, eles se sentam em duas cadeiras na frente do psicólogo que era um lobo. Lucas os acompanhou, sonolento, e se sentou no colo de Roberto.
— Ah, esse é o Lucas — diz o psicólogo com um sorriso simpático.
— Sim, nós somos os pais dele — diz Roberto.
— Trouxemos ele aqui porque ele não para de arrancar os pelos da cauda e ele parece não sentir dor — diz Nicole com o rosto preocupado.
— Eu vou fazer umas perguntas a ele para fazer um diagnóstico — diz o psicólogo.
— Lucas, se você me responder a essas perguntas vou te dar umas balinhas.
O psicólogo mostra um depósito cheio de balinhas de hortelã e caramelo, as preferidas de Lucas e ele ficou com água na boca.
— Você aceita o desafio? — perguntou o psicólogo.
— Sim — respondeu Lucas.
— Lucas, o que você sente quando arranca seus pelos?
— Não sei — diz Lucas — Acho que me sinto mais calmo, a vontade de arrancar passa.
— Você não sente dor? Isso não te incomoda?
— Eu sinto um pouco, mas passa, eu gosto de puxar os pelos mais grossos — diz Lucas.
— Você não sente dor quando sai sangue? Você não se incomoda com o sangue?
— Não — diz Lucas ao psicólogo.
— Eu não consigo me controlar — diz Lucas — Dá vontade de arrancar e eu tiro.
O psicólogo ia fazendo anotações para dar um diagnóstico.
— Como ele anda se comportando ultimamente? — pergunta o psicólogo aos pais.
— Ele anda muito ansioso, ele não para — diz Nicole — Não se concentra em nada.
— Ele pode estar com tricolofagia — diz o psicólogo.
— O que é isso? — pergunta Roberto.
— O filho de vocês está com sintomas de ansiedade, significa que ele está tão ansioso que arrancar os pelos é uma espécie de alívio para ele. Por isso, não está sentindo dor — diz o psicólogo.
— Isso tem cura? — pergunta o pai.
— Sim, vou receitar um remédio pra ele, mas fiquem de olho no comportamento dele. Isso pode evoluir para um problema mais grave, crises de ansiedade podem levar à depressão — diz o psicólogo.
— Mas ele só tem seis anos — diz Roberto.
— Às vezes, a pessoa tem uma predisposição — diz o psicólogo — A família de vocês tem histórico de depressão? — perguntou o doutor.
— Sim — responderam Nicole e Roberto ao mesmo tempo.
— Não há motivos para muito — diz o psicólogo — Só fiquem de olho nele, e se os sintomas voltarem vocês devem marcar outra consulta conosco.
A sessão termina e Lucas, junto com seus pais, deixam o local. Lucas vai com um dos bolsos cheios de bala de caramelo e chupando um pirulito de hortelã. Os pais passam pela farmácia e compram o remédio receitado. Ao chegarem em casa, Lucas toma a primeira dose, e com o passar dos dias os sintomas da ansiedade foram sumindo e a vida voltou ao normal. Pelo menos, por enquanto.